29/05/12, 18:06
Após 5 horas, Demóstenes nega ter usado mandato em favor de bicheiro
Em depoimento de cinco
horas no Conselho de Ética do Senado, o senador Demóstenes Torres (sem
partido-GO) negou nesta terça-feira (29) que tenha usado seu mandato
para favorecer o bicheiro Carlinhos Cachoeira, preso em fevereiro sob a
acusação de comandar uma quadrilha de jogo ilegal.
Fotos: Agência Brasil
Em
discurso e após ser interrogado por parlamentares, ele voltou a afirmar
que é amigo de Cachoeira, admitiu que o contraventor pagava sua conta
de celular, mas negou que tivesse conhecimento de irregularidades
cometidas pelo bicheiro. Demóstenes disse que vive o "pior momento" de
sua vida e que se sente traído por Cachoeira. Ele afirmou ser vítima do
"maior massacre da história".
O
senador goiano responde a processo disciplinar no conselho por suspeita
de quebra de decoro parlamentar, sob acusação de ter utilizado o
mandato para auxiliar os negócios de Cachoeira. O depoimento começou por
volta das 10h20, e a sessão foi encerrada por volta de 15h20.
No
depoimento ele afirmou ser inocente das acusações de envolvimento com a
quadrilha que explorava jogos ilegais. "Nunca sofri tanto na minha
vida. Eu sou um homem que tem vergonha na cara. [...] Eu sou um carola",
disse Demóstenes aos demais parlamentares.
Celular pago por Cachoeira
Ao
responder um questionamento do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP),
Demóstenes admitiu que o bicheiro deu a ele um aparelho nextel
habilitado nos Estados Unidos e que Cachoeira pagava a conta do
telefone. Segundo a Polícia Federal, o telefone era habilitado nos
Estados Unidos para que as conversas não fossem interceptadas.
O
senador disse que não via quebra de decoro em usar telefone pago por
Cachoeira, segundo ele cerca de R$ 50 por mês. Randolfe contrapôs e diz
que há irregularidade no fato de um servidor público receber qualquer
quantia ou benefício de um ente privado. Demóstenes afirmou, então, que
não teria aceitado se soubesse antes o que sabe agora sobre Cachoeira.
O
senador Pedro Taques (PDT-MT) perguntou ainda a Demóstenes qual é a
razoabilidade de um senador usar um telefone habilitado nos EUA, e
Demóstenes respondeu que é por "questão prática" porque o telefone
poderia ser usado para falar no Brasil e também nos Estados Unidos.
De
acordo com Demóstenes, o aparelho não era usado somente para falar com o
bicheiro. "Não tinha lanterna na popa e não tinha como adivinhar que o
rádio era utilizado para outras atividades", disse. Demóstenes afirmou
que usou o rádio "por comodidade", porque poderia se comunicar com
facilidade.
“Hoje
é fácil de dizer que foi um erro, Eu não sabia a dimensão que isto
tinha, nem que era utilizado para outras atividades”, disse.
Dinheiro do bicheiro
O
senador rebateu ainda denúncias de que teria recebido dinheiro do
esquema criminoso. Segundo as investigações, ele teria recebido o valor
de pelo menos R$ 1 milhão. "Não entrou um milhão na minha conta. “Nem R$
1 milhão, [...] nem 3 mil reais, em nenhum momento isso entrou na minha
conta ou me foi dado de qualquer maneira”, disse o senador.
“Estou
entregando as cópias de minhas duas contas que em nenhum momento foi
depositado R$ 1 milhão na minha conta. As provas documentais estão
aqui”, disse.
Traído e alcagueta
Indagado
pelo relator do processo, senador Humberto Costa (PT-PE), se sentia-se
traído pelo bicheiro, Demóstenes afirmou: “Acho que todo mundo [se sente
traído]. Todo mundo que se relacionou com ele e não tinha conhecimento
[das atividades ilegais]. Todos nós ficamos na pior situação.”
“O
que eu sabia era que me relacionava com um empresário que se
relacionava com cinco governadores, e outras dezenas de políticos e
empresários. Sim, ele tinha vida social, sim [...] Reafirmo que tinha
amizade com ele, sim”, disse.
Costa
perguntou se a amizade era "íntima" e Demóstenes respondeu: "De certa
forma, sim". Durante sua fala, o senador voltou a confirmar que recebeu
presentes do bicheiro.
Depois,
ao fazer questionamentos, o senador Randolfe Rodrigues perguntou quem
eram os cinco governadores citados. Demóstenes respondeu dizendo que os
nomes estão na imprensa e que ele não vai fazer papel de "alcagueta".
Gravações da PF e foro privilegiado
O
senador também tentou desqualificar as conversas telefônicas
registradas pela Polícia Federal nas investigações sobre a quadrilha de
Cachoeira. Segundo ele, algumas gravações foram “montadas”.
“Não
[reconheço minha voz em todas as gravações], por isso pedi perícia. Tem
muita coisa truncada, editada. Evidentemente que muitas conversas eu
travei, agora, muitas conversas foram editadas e montadas”, afirmou.
Demóstenes
disse ainda que os grampos são ilegais e deveriam ter sido autorizados
pelo Supremo Tribunal Federal. Como é senador e tem foro privilegiado,
ele argumenta que a Polícia Federal não poderia ter registrado as
conversas sem antes pedir permissão ao STF.
“Tenho
condições de enfrentar todas as acusações no mérito. Agora, o fato é
que a investigação é ilegal e coloca em risco a democracia no Brasil”,
afirmou. Segundo ele, o país corre o risco de se tornar uma “República
comandada por procuradores e delegados”.
“Se
o Supremo entender que o a investigação pode ser feita pelo primeiro
grau e não pelo Supremo, vamos viver numa República comandada por
delegados e procuradores do Ministério Público”, disse.
Durante
o depoimento, o senador Mário Couto (PSDB-PA) perguntou ao colega: A
voz das gravações é sua? Demóstenes responde: "Em grande quantidade sim,
mas truncadas." Mário Couto disse então que, se a voz é de Demóstenes,
"a coisa está bem atrapalhada". "Respeito sua posição, senador", disse
Demóstenes.
Para
o senador, existe uma intenção por parte do Ministério Público e da
polícia de “amedrontar” os ministros do Supremo. Os inquéritos da PF
relativos à investigação sobre Cachoeira trazem conversas telefônicas em
que ministros do STF são citados por Demóstenes.
“Vivemos
um perigo e a função principal é amedrontar os ministros do Supremo. Os
ministros estão com medo porque dá a impressão de que o senador é
criminoso e se aproximou do Supremo para aproximar o contraventor do
Supremo. Fui investigado clandestinamente, mas tenho condição de me
defender no mérito e já disse que muitas das coisas apresentadas são
edições“, afirmou.
'Vivo o pior momento da minha vida'
No
início de sua fala, Demóstenes afirmou que "resistiu até o momento" às
acusações porque "redescobriu Deus". "Redescobri Deus. Se eu cheguei até
aqui, é porque readquiri a fé", afirmou.
Ele
disse ainda que, desde que as denúncias sobre sua relação com o
contraventor vieram à tona, sua vida sofreu mudanças. “Vivo o pior
momento da minha vida. Vivo um momento que jamais imaginaria passar. A
partir de 29 de fevereiro deste ano, eu passei a enfrentar algo que
jamais enfrentei. Depressão, remédio para dormir, que não faz efeito,
fuga dos amigos e a campanha sistemática mais orquestarda da história do
Brasil”, disse.
O
senador afirmou que chegou a pensar “as piores coisas”. “Confesso que
pensei nas piores coisas. Pensei em renunciar meu mandato”, disse.
Legalização do jogo
Logo
no começo do depoimento, o senador Demóstenes Torres afirmou que não
tem relação com jogos ilegais. "Eu não tenho nada a ver com o jogo. Devo
essa explicação principalmente à minha mulher, aos meus filhos, às
senhoras e aos senhores. [...] Os procuradores, os senhores delegados
podem até brigar, mas num ponto eles convergem. Eu jamais tive qualquer
participação em esquema de jogos ilegais", afirmou.
Ele
admitiu que conversou com o contraventor sobre o projeto que tramitava
na Casa sobre legalização dos jogos, mas negou ter feito algum tipo de
articulação para que a matéria fosse aprovada.
“Eu
indago se eu procurei algum parlamentar aqui para falar sobre isso.
Nunca [...] Se toda a conversa que tivermos com pessoas que têm pleito
aqui for levado para a quebra do decoro, imagino onde vai parar” disse
Demóstenes, que completou: "Não há quebra de decoro em se comentar um
projeto com quem quer que seja."
Sobre o relatório elaborado pelo senador Humberto Costa, Demóstenes disse que há elementos que precisam ser debatidos.
Em
um dos trechos do relatório, o relator observou que no dia 5 de
novembro de 2008, a CCJ do Senado, sob a presidência do então senador
Marco Maciel, votou e aprovou o projeto de lei 274/2006, oriundo da CPI
dos Bingos, que tinha o objetivo de criminalizar a exploração de jogos
de azar e tornar mais eficiente a punição nos casos de lavagem de
dinheiro.
“Eu
quero lembrar que eu votei contra a relevância e a urgência por
imposição constitucional, porque não era mérito. Tratava-se de matéria
preliminar e acompanhei orientação partidária, como mostram as notas
taquigráficas daquela sessão."
Demóstenes
afirmou que era a favor do projeto da legalização dos bingos desde que o
recursos gerados com os jogos fossem utilizados para a implementação de
escolas de tempo integral.
'Sócio oculto' da Delta
Sobre
o relacionamento com a Delta Construções, empresa suspeita de
participar do esquema do contraventor, o senador afirmou que nunca foi
sócio da empresa, e que não conhece Fernando Cavendish, diretor afastado
da empresa. “Não existe isto. É factódide. Como eu posso ser sócio de
alguém que não conheço”.
Gravações
da PF apontaram que Demóstenes teria tentado beneficiar a Delta. Em
documento do processo que corre no Supremo, o procurador-geral da
República, Roberto Gurgel, argumenta que evidências apontam que
Demóstenes atuava como "sócio oculto" da Delta.
“O sócio oculto da Delta não sou eu. Se existe, procurem com uma lupa maior porque não sou eu.”
Demóstenes
também negou que tenha feito lobby para a Delta, mas admitiu que fez
duas visitas à empresa, uma delas para devolver um iPad que ganhou dos
assessores de Cachoeira.
'Jogou verde'
Ainda
em sua fala, Demóstenes disse que, em 2011, Cachoeira revelou para ele e
para Marconi Perillo, governador de Goiás, que tinha largado a
contravenção e se tornado um "empresário dentro da legalidade".
No
depoimento, Demóstenes disse que "jogou verde" com Cachoeira uma vez
dizendo que havia uma operação da Policia Federal para investigar jogos
ilegais. O senador afirmou que fazia "testes" para detectar se Cachoeira
ainda mantinha aitividades ilegais."Evidentemente que o único propósito
era para saber se ele ainda estava no jogo", justificou.
PGR prevaricou
O
senador Demóstenes afirmou ainda que o procurador-geral da República,
Roberto Gurgel, "prevaricou" ao suspender, em 2009, as investigações da
Operação Vegas, que apurou esquema de jogo ilegal supostamente comandado
pelo contraventor.
"Ele
[Gurgel] pervaricou [faltou com o dever]. Prevaricação para satisfazer
sentimento ou interesse pessoal. Pode ser que não se prove o sentimento
pessoal, mas em relação a improbidade administrativa, mais dia menos
dias, o procurador vai ter de responder por isso", afirmou Demóstenes
Torres.
As
investigações, na época, já apontavam a ligação de Cachoeira com o
senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e com os deputados federais
João Sandes Júnior (PP-GO) e Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO). Em
resposta enviada a CPI Mista que investiga as relações do bicheiro com o
políticos e empresários, o procurador disse que se não tivesse tomado a
decisão de impedir a abertura do inquérito, não teria sido desvendado o
esquema criminoso.
Na
explicação que encaminhou à CPI Mista, Gurgel afirmou que os "elementos
colhidos na operação Monte Carlo", posterior à Vegas, que resultou na
prisão de Cachoeira, são uma "demonstração inequívoca do acerto da
decisão de sobrestamento [suspensão]" da Vegas. Demóstenes criticou o
procurador por não "fazer nada".
"Não
arquivou, não pediu diligência, não fez nada. E mais, os argumentos que
ele [procurador] fez, para que as investigações sejam retomadas no
futuro [...] A outra operação nem começou na Polícia Federal, começou no
Ministério Público de Goiás", disse Demóstenes.
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